sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Bócubócubócubócu

E agora, olho pra cima evitando a saudade, pra falar dele, o melhor do mundo. O proclamador de frases como:

- Se cair do chão não passa.

- O que não mata, engorda.

- Homem que é homem arrota e não pede desculpas.

- Bócubócubócubócubócu (ruído pra chamar a atenção da boiada e avisar suas filhas que a comida está na mesa, vai entender...)

E a minha favorita:

- O homem vai longe depois de cansado...

Nessa ocasião eu teria 8 anos, se não me falha a memória, e participava de um enduro a cavalo, uma cavalgada árdua até pro Tio Luciano e seus dois metros de altura, quem dirá pruma menina ainda bem menina.

Começamos bem, cascos fazendo barulho na terra batida, friozinho das 6 da manhã, e o dia foi passando, a bunda doendo depois de horas na sela, o sol do meio dia castigava a nuca, suor e poeira no rosto, não tinha garapa nem rapadura que desse jeito na sede e fome.

Claro que lá pelas 4 da tarde eu desabei, não agüentava mais, sentia pena de mim mesma, do pobre cavalo, descobri que possuía músculos que nem imaginava, afinal me doía tudo tudo, e quando eu já não podia mais, comecei a me debulhar em lágrimas, e desembestei a falar entre soluços e nariz escorrendo.

Ele virou-se para mim com sua paciência e candura inquebrantáveis e trucou:

- Filha, jajá chegamos, agora não tem o que fazer...E além do mais; o homem vai longe depois de cansado.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Nascer da Terra

“Não é da luz do sol que carecemos. Milenarmente a grande estrela iluminou a terra e, afinal, nós pouco aprendemos a ver. O mundo necessita ser visto sob outra luz: a luz do luar, essa claridade que cai com respeito e delicadeza. Só o luar revela o lado feminino dos seres. Só a lua revela intimidade da nossa morada terrestre. Necessitamos não do nascer do Sol. Carecemos do nascer da Terra”

domingo, 15 de novembro de 2009

Noite.Frio

"Ainda bem que a noite baixou:
é mais simples conversar à noite.
Muitas palavras já nem precisam sem ditas"

Para descrever com o respeito e esmero que a experiência – simplória e humana - pede, é necessária uma xícara de café-com-leite, e seguem os dias, o tempo no estrangeiro, esses costumes ajenos a tudo que eu conhecia, o primeiro reveillon que eu vou passar com cachecol e não vestido branco, o primeiro natal longe da família, fevereiro sem carnaval. Mas a troca é doce.

Hoje no caminho de volta pra casa eu vi que penduraram aqui no centro as luzes de natal nas ruas, imitando flocos de neve gigantes e multi-coloridos, quero que chegue a noite logo, pra andar pelas ruelas com um chocolate fumegante nas mãos e olhar com o olhar dos que não são daqui como se desdobra o poente dum ano em outro lugar.

O frio já pede um edredom bem gordo pra dormir abraçada por um mar de algodão; o frio – exigente – pede mais, mas devolve na mesma moeda; quando o vento gela a ponta dos dedos e do nariz, tem coisa melhor que adormecer devagarinho no ombro de quem a gente gosta? Escutar palavras em meia-voz, como se a noite botasse medo, sem querer acordar a madrugada que já vai alta. É nessa hora que dois se enredam; cúmplices sem se dar conta.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Repara

"Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor"

É, pode ser aquele rompante de sentimentalidade que colore uma noite fria, pode ser a saudade que procede a despedida pela manhã, a falta agora do boa noite doce dos que já quase dormem, com olhos fechados buscando a boca para dar um beijo leve; pode ser coisa de menina que se comove à toa.

Já eu diria que essa é uma declaração sobre o bem que ele me faz; quando chuviscou hoje de tarde eu vi sim as nuvens escuras de outra maneira, mais comovida e mais próxima, reparei nelas melhor.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Silêncios

"há no silêncio do ar
uma paz autorizada...
um murmúrio lírico
no renascimento
de cada momento.
o pássaro brinca entre uma nota de assobio
e um sopro de vento.
a borboleta adormece — encantada.
(...)
para haver paz
há que caminhar silêncios"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A areia, o tempo

Repleção de nuvens nos olhos de hoje, porque o até é doce e isso bota a gente comovido com a vida, na tentativa de começar um livro me detive na dedicatória e por instinto quiçá ecoou assim de leve a simplicidade dum companheiro de viagens; a areia, o tempo, a árvore da chuva; e tudo vive para que eu viva.

Se perdemos o pé e erramos, o desacerto é bonito e é nosso. Com a singeleza de um gesto, segurando o rosto com as mãos em concha, e mirando bem fundo a íris, me ensinaram uma verdade; eu te (re)conheço.

domingo, 13 de setembro de 2009

Queda livre


O vento soprou de leve e balançou o vestido que pendia do braço da cadeira, a luz amarela da manhã invadiu as paredes azuis do quarto, e matreira, ao atressar a vidraça prismou-se todinha.

Ele a olhava de longe, absorta nos próprios sonhos, alheia ao observador não por mal ou indiferença - o mundo sonhado é que é mais fabuloso.

Reparou na sua castanha despenteada e concluiu que ela tinha um desleixo que a tornava graciosa. Parecia uma boneca de pano quando dormia, os membros torcidos como galhos quebrados, e uma mecha de cabelo no rosto, tinha sempre um dos olhos cobertos.

Ao despertar pro mundo ela era dona de uma maneira esquisita de estar ali, sempre meio que jogada, as calças caindo pelos quadris, o chinelo escapando dos pés, a alça do vestido pendendo dos ombros. Ajeitava-se como se a vestimenta tivesse mesmo que lhe fugir.

Agora ela respirava fundo, nem a claridade-prisma a faria despertar; ele então puxou o lençol descobrindo sua perna e a tocou ternamente.

"Ela lhe deu um sorriso de lado, só metade de sua face, como um pequeno penhasco branco".

Deixou-se cair.